Star Wars · Bastidores

Como surgiu Star Wars: a história de um filme que ninguém queria financiar

Dois estúdios recusaram o projeto, o set no deserto foi destruído por uma tempestade e a montagem inicial era, nas palavras dos amigos de Lucas, um desastre. Como isso virou o maior fenômeno do cinema.

Arte de capa: Como surgiu Star Wars

Em 1973, George Lucas era um diretor de 29 anos com um sucesso inesperado nas mãos: Loucuras de Verão, um filme pequeno sobre adolescentes em carros que rendeu mais de cem vezes o próprio orçamento. Ele poderia ter escolhido qualquer projeto. Escolheu escrever uma ópera espacial que ninguém entendia — inclusive ele, em boa parte do processo.

A história de como Star Wars saiu do papel envolve duas recusas de estúdios, uma tempestade que destruiu o set no primeiro dia, uma montagem inicial considerada desastrosa pelos amigos do diretor e uma negociação contratual que se tornou lenda em Hollywood.

A ideia antes do roteiro

O primeiro impulso de Lucas foi mais simples: ele queria filmar Flash Gordon. Cresceu assistindo aos seriados dos anos 1930 e tentou comprar os direitos. Não conseguiu — o produtor Dino De Laurentiis já os detinha. A alternativa foi escrever algo com o mesmo espírito, mas original.

O primeiro tratamento, de 1973, tinha treze páginas e quase nenhuma relação com o filme final. Havia um general chamado Skywalker, um imperador, princesas e uma raça de guerreiros. Lucas reescreveu o roteiro quatro vezes ao longo de três anos. Personagens mudavam de nome, de espécie e de lado. Em algumas versões, Luke era uma mulher; em outras, um velho general. Han Solo chegou a ser um alienígena verde com guelras.

De onde vem cada peça

Star Wars é frequentemente descrito como original, mas Lucas nunca escondeu suas fontes. Ele as combinou de um jeito que ninguém havia tentado.

  • Akira Kurosawa. A estrutura de A Fortaleza Escondida (1958) — a história contada do ponto de vista de dois camponeses tolos que acompanham uma princesa disfarçada — vira C-3PO e R2-D2 abrindo o filme. A estética dos Jedi também deve muito aos samurais.
  • Joseph Campbell. A leitura de O Herói de Mil Faces deu a Lucas a estrutura da jornada do herói, com chamado, mentor, provação e retorno. Ele reescreveu partes do roteiro especificamente para encaixar esse molde.
  • Filmes de guerra. Para explicar à equipe como queria as cenas de combate espacial, Lucas montou um vídeo de referência com trechos de filmes de aviação da Segunda Guerra. A coreografia do ataque à Estrela da Morte veio direto dali.
  • Faroeste e cinema mudo. A cantina de Mos Eisley é um saloon. As transições em cortina, marca registrada da saga, são um recurso que já era considerado antiquado em 1977.

Dois estúdios disseram não

Com o roteiro na mão, Lucas foi à United Artists, que recusou. Depois à Universal, o estúdio que havia bancado Loucuras de Verão, e que também recusou. O argumento em ambos os casos era o mesmo: ficção científica não vendia. O gênero vinha de uma sequência de fracassos comerciais e era visto como coisa de nicho.

A 20th Century Fox aceitou, principalmente pela confiança do executivo Alan Ladd Jr. no diretor, e não no projeto. O orçamento aprovado foi de cerca de oito milhões de dólares, valor modesto até para os padrões da época.

Um set em colapso na Tunísia

As filmagens começaram na Tunísia, em março de 1976, e foram atingidas por uma tempestade de areia inédita em décadas. Cenários foram destruídos, equipamentos danificados e o cronograma estourou logo na primeira semana.

Nos estúdios britânicos de Elstree, a situação não era melhor. A equipe inglesa, acostumada a produções tradicionais, tratava o projeto com ceticismo aberto. Os robôs quebravam constantemente. Kenny Baker mal cabia dentro do R2-D2. Anthony Daniels não conseguia sentar com a armadura de C-3PO. Alec Guinness, ator shakespeariano respeitadíssimo, achava os diálogos constrangedores e pediu que seu personagem morresse — o que acabou melhorando o filme.

Harrison Ford resumiu o problema dos diálogos em uma frase que virou clássica de bastidor: "George, você pode escrever essa porcaria, mas não dá para dizer".

Lucas adoeceu durante a produção e foi diagnosticado com hipertensão e exaustão. O filme estourou o orçamento e o cronograma. A Fox considerou seriamente interromper a produção.

A montagem que salvou o filme

O primeiro corte foi exibido para um grupo de amigos diretores, incluindo Brian De Palma, Steven Spielberg e Martin Scorsese. A reação foi majoritariamente negativa. De Palma foi especialmente duro com o texto de abertura, que era longo e confuso — e acabou reescrevendo boa parte dele, gratuitamente.

Foi na montagem que Star Wars virou Star Wars. Marcia Lucas, então esposa do diretor e montadora premiada, reorganizou o clímax intercalando o ataque dos caças com a tensão dentro da Estrela da Morte. A decisão de cortar entre as duas frentes criou o ritmo que hoje parece óbvio.

A trilha de John Williams, gravada com a London Symphony Orchestra, fez o resto. Lucas queria música clássica pré-existente, como Kubrick havia feito em 2001. Spielberg convenceu-o a contratar Williams, que compôs uma partitura sinfônica com temas próprios para cada personagem — uma técnica que praticamente não era mais usada em Hollywood desde os anos 1950.

O contrato mais lucrativo da história

Durante a negociação com a Fox, Lucas pediu uma redução no próprio salário de direção em troca de dois itens que o estúdio considerava sem valor: os direitos de merchandising e o controle das sequências. A Fox aceitou sem hesitar. Brinquedos de filme eram, até então, um negócio marginal.

Star Wars estreou em apenas 32 cinemas nos Estados Unidos, em 25 de maio de 1977, porque os exibidores não acreditavam no filme. Em poucas semanas, as filas davam a volta no quarteirão. A demanda por brinquedos foi tão maior que a capacidade de produção que a Kenner chegou a vender, no Natal de 1977, uma caixa vazia com um certificado prometendo entregar os bonecos meses depois. Vendeu mais de meio milhão dessas caixas.

O impacto no cinema foi estrutural. Star Wars consolidou o modelo de blockbuster de verão, tornou o merchandising uma fonte de receita central, criou a Industrial Light & Magic — que dominaria os efeitos visuais por décadas — e provou que ficção científica podia ser o maior produto comercial da indústria, e não um nicho.

Quarenta e poucos anos depois, é difícil imaginar uma linha do tempo em que dois estúdios dizem não a esse roteiro. Mas ela existiu, e por muito pouco.

Perguntas frequentes

Em que ano Star Wars foi lançado?

Em 25 de maio de 1977, nos Estados Unidos, com o título simples de Star Wars. O subtítulo Episódio IV: Uma Nova Esperança só foi adicionado no relançamento de 1981.

Quais foram as principais influências de George Lucas?

A Fortaleza Escondida, de Akira Kurosawa, os seriados de Flash Gordon dos anos 1930, os estudos de mitologia comparada de Joseph Campbell e filmes de guerra britânicos, cujas cenas de combate aéreo Lucas usou como referência bruta na montagem.

Por que George Lucas ficou tão rico com Star Wars?

Ele abriu mão de parte do salário de direção em troca dos direitos de merchandising e das sequências, algo que a Fox considerou irrelevante em 1977. Esses direitos renderam bilhões nas décadas seguintes.

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